O turismo contribui com cerca de mil milhões de dólares norte-americanos para o Produto Interno Bruto (PIB) Nacional, mas está longe de se assumir como pilar da economia nacional ou destino de férias para nacionais ou estrangeiros. Aliás, dos cerca de 400 mil visitantes que se deslocaram a Angola em 2009, a grande maioria veio em serviço ou fazer negócios, o que coloca o país longe da rota turística internacional. Porém, como as potencialidades existem, chegou a hora de por mãos à obra e definir prioridades, estratégias e referências.

Economia & Mercado – Temos ainda um turismo muito nascente e pouco competitivo, sendo que é difícil chamar turismo ao fluxo de pessoas que vêm em serviço, em negócios, ou visitar familiares. Neste momento, o Governo encontra-se a preparar uma série de instrumentos para, efectivamente, se desenvolver o sector, em particular quanto à modernização da legislação, ao estabelecimento de um Plano Director do Turismo ou ainda à criação de infra-estruturas físicas e humanas. Mas, em termos de referências a nível internacional, quais as que melhor se identificam com o turismo que se pretende desenvolver em Angola?
Carlos Cunha –
A Namíbia e a África do Sul têm muito para nos ensinar em termos de turismo, nomeadamente no que diz respeito a turismo de paisagem e natureza, assim como ecoturismo. Mas, quanto a assumirem o papel de referências em relação à qualidade dos serviços e à formação, essas estão na Europa, particularmente na Suíça, bem como em Portugal, Brasil, Espanha e, fora desse circuito europeu, Cuba.

E&M – A propósito do turismo de natureza e até lúdico, o qual é praticamente inexistente em Angola, não lhe parece que este deveria ser uma prioridade enquanto factor de sustentabilidade futura do sector, já que o chamado turismo de negócios não se vislumbra sustentável após o actual “boom” da reconstrução nacional? É que Angola está longe de ser, ou vir a tornar-se nos próximos anos, uma grande praça financeira ou um “cluster” de inovação empresarial que alimente um turismo de negócios no longo prazo, não lhe parece?
CC – Na minha opinião, é um pouco prematuro falar dos caminhos a enveredar antes de se conhecer a estratégia nacional. Assim e sem estar concluído o Plano Director do Turismo, não é possível definirem-se prioridades sustentáveis no longo prazo. Acresce que, também enquanto opinião individual, acredito que este é um debate que pertence igualmente à sociedade civil. Isto, porque definir o futuro do turismo envolve igualmente definir o futuro de Angola.

Aquilo que definirmos como o futuro do país vai ter impacto no turismo. Por exemplo, o Brasil derivou para a música, o samba, o futebol e a praia e recebe 5 milhões de turistas por ano. Já a Espanha, uma nação muito mais pequena que o Brasil, recebe 60 milhões. Mais, a França atrai 72 milhões de turistas por ano.

E&M – Então, o que é que está a ser pensado em termos de estratégia nacional no sentido de se criar e desenvolver a imagem que vai “vender” Angola dentro e fora do país?
CC – Pessoalmente, acredito que a prioridade de Angola deveria apontar para o turismo sinergético, ou seja, o turismo que alia a natureza, a paisagem, a história, a língua, enfim, tudo o que torna Angola diferente do que os restantes países têm para oferecer.

Estratégia nacional

E&M – Considera então que um Plano Estratégico Nacional deveria apontar para aí?
CC – Claramente, isto criaria um ambiente muito em linha com o ecoturismo, mas especificamente orientado para as características e especificidades nacionais. Temos que conseguir retirar todas as potencialidades da nossa realidade para nos tornarmos únicos.

E&M – Julgo que todos somos unânimes em reconhecer o grande potencial de Angola, mas, por exemplo, depois de definida a estratégia, quem deve coordenar e gerir este potencial? A administração central, vulgo Governo, ou a opção deverá passar igualmente por descentralizar a gestão do turismo?
CC – Primeiro, temos que fazer um inventário de todos os recursos e pontos turísticos que temos e identificar quais são os prioritários e estratégicos. Depois, há que indicar quem gere esses recursos e se constituem ou não zonas protegidas e, em consequência, devem ser bloqueadas a qualquer tipo de construção. Existem locais que são património nacional e até mundial, que devem ser preservados e que não podem ser cedidos a ninguém.


E&M – Então, o que é que falta para se avançar nesses sentido? É a legislação que também deve ser alterada?
CC – São vários factores que concorrem para se desenhar um quadro ideal para o turismo nacional. Por um lado, temos a necessidade de se desenhar o Plano Director do Turismo, mas é igualmente prioritário desenvolver um novo pacote legislativo. A lei que nós temos é o decreto 4993 de 1963! E o último regulamento dessa lei é o 6675 de 25 de Janeiro de 1975. Este cenário leva a vários problemas e distorções no mercado.

Por exemplo, hoje na Europa é proibido colocar uma banheira num hotel, mas os nossos hotéis têm banheira e apesar de se quererem modernizar e passarem a ter duche a nossa lei não o permite. Estamos a andar ao contrário. Se estes hotéis resolverem seguir o padrão internacional e nós ainda não tivermos actualizado a legislação, vamos ter que lhes retirar estrelas.

Foi muito fácil fazer Angola enquanto se reabilitou o que era do colono, mas hoje estamos a construir tudo de novo e não podemos fazê-lo com base numa legislação obsoleta.

Falta um turismo genuíno

E&M – Daí a questão de fundo, que é o facto de não termos ainda um turismo na verdadeira acepção do conceito. É que destes 400 mil visitantes, a sua grande maioria são pessoas que vieram em serviço, em negócios ou visitar familiares e não propriamente turistas que se deslocaram ao país para actividades de lazer e férias. Portanto, nós ainda não temos turismo, não lhe parece?
CC – É certo que este não é um turismo na verdadeira acepção da palavra, mas é rentável e consegue suportar os preços resultantes deste desequilíbrio da oferta hoteleira. Contudo, estou convencido que a partir deste ano já vai começar a surgir outro tipo de turismo.
Tenho conhecimento de uma excursão de portugueses que vem cá em Agosto só para fazer turismo e, embora ainda muito poucas, começam a surgir outras visitas com este intuito exclusivamente lúdico.

E&M – Para que a “marca Angola” consiga singrar e vender-se lá fora não lhe parece que é prioritário passarmos a ter outro tipo de turismo?
CC – Claro que sim. Por exemplo, o CAN 2010 (Taça Africana das Nações em futebol) foi uma porta aberta para um turismo desportivo, mas pode pensar-se num turismo paisagístico, de vida selvagem e de natureza, num agro-turismo, num turismo de música ou até gastronómico, entre tantos outros factores.

E&M – Portanto, não partilha da ideia de que o turismo de negócios possa assumir o papel de principal alimentador do sector em Angola?
CC – São poucos os países no Mundo que têm o turismo de negócios como primeira prioridade ou fonte de rendimento e nós não temos essas características. Por exemplo, não somos uma grande praça financeira. Assim, vamos ter que derivar para algo de diferente e estamos a estudar qual será o caminho a seguir.

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