Precisamente há seis anos, a Economia & Mercado publicou um dossier sobre as artes plásticas angolanas, através do qual era possível antever que, além de o sector vir a tornar-se mais valioso em termos de volume de negócio, surgiriam as infra-estruturas e instituições necessárias que contribuiriam para formalizar a actividade dos artistas, dar-lhes mais dignidade e visibilidade e, não menos important, para a vida económica do país, pô-los a contribuir. Aliás, embora ainda estivesse em estado embrionário, em 2010 já se estimava que a venda de arte contemporânea nacional movimentava cerca de 3 milhões de dólares norte-americanos anualmente, porém apenas assente num núcleo restrito de artistas e coleccionadores. Hoje, fontes do sector afirmam que o negócio continua lucrativo, mas não dispõe de infra-estruturas de apoio à actividade dos artistas, a maior parte deles a trabalhar isoladamente, o que dificulta, entre outras acções necessárias, o registo estatístico desta actividade que continua a movimentar milhões, à margem do fisco.

Com o fim da guerra civil angolana em 2002, e o boom do petróleo nos anos seguintes, as artes plásticas angolanas ganharam um particular interesse por parte de compradores e coleccionadores. Entretanto, actualmente, o sector também se ressente do abrandamento da economia nacional, mas poderia sofrer menos e poderia ainda ser fonte de receitas em divisas para os cofres do Estado, afirmam fontes contactadas pelas Economia & Mercado.

Tratando-se de um mercado embrionário, defendem a intervenção do Estado angolano através da criação de infra-estruturas e políticas públicas que acompanhassem o crescente interesse dos investidores, ajudaria não só a formalizar o mercado, mas também a torná-lo credível e ainda mais atractivo, na medida em que as artes constituem um instrumento de capitalização de activos monetários e um ambiente de confiança é um pressuposto fundamental para que o negócio funcione em plenitude.

Em 2010, constatou-se que não só a dimensão do mercado nacional de artes era reduzida, à semelhança da maioria dos países africanos, como também faltava um sistema normal de Arte Contemporânea com circuito organizado de galerias que representassem uma garantia tanto para os artistas como para os compradores.


O artista plástico e curador Benjamim Sabby, que lembrou o aumento do interesse pela arte angolana desde 2002, afirma que o país continua a precisar de um mercado estruturado que proporcione um ambiente de negócios sustentáveis no ramo das artes plásticas.
Outro artista, Francisco Van-Dúnem, ou simplesmente Van, afirma que o nível de criatividade e de técnicas entre os profissionais das artes plásticas em Angola é “bastante aceitável”, mas lamenta que ainda existam debilidades infra-estruturais, incluindo as ligadas à formação de quadros. “Infelizmente, tivemos problemas muito complexos no país que impossibilitaram tudo isso, e, eis a repercussão: poucas galerias de arte, museus, centros culturais e escolas. Poucos coleccionadores, poucas visitas às exposições e instituições públicas e privadas sem peças de arte nos seus compartimentos”, desabafou.

Já o produtor Dominick Maia-Tanner sustenta que “as belas artes podem, com efeito, ser uma indústria, no sentido em que podem ser um veículo promotor de oportunidades de negócio ou uma economia criativa”. Entretanto, ressalva que “para tal são necessários incentivos, públicos e privados, para que possam surgir mais agentes de belas artes e espaços de exposição, nomeadamente mais produtores, curadores e galerias capazes de mobilizar os artistas”, defende, e acrescenta ainda que “é preciso também criar padrões de oferta para garantir a qualidade das exposições, sendo importante valorizar a remuneração dos artistas, por um lado, e das galerias, por outro”.

Criatividade gera negócio… e riqueza


Para Dominick Maia-Tanner, “as artes plásticas oferecem possibilidades praticamente ilimitadas, pelo que também as oportunidades de negócios no sector não estão à partida circunscritas”, afirma e argumenta que, “como as próprias artes plásticas, os modelos de negócio têm dinâmica própria e rompem com a lógica dos padrões económicos tradicionais”.

O também produtor chama ainda a atenção para uma característica dos chamados sectores criativos da economia, que é a prevalência de pequenos negócios, que devem ser incentivados. “Mas também as grandes empresas podem ter um papel importante no desenvolvimento das artes plásticas, se, por exemplo, encararem a arte como um investimento, ou seja, se se desenvolver em Angola uma cultura de ‘coleccionismo empresarial’, à semelhança do que já sucede noutros países. Para isso, no entanto, também são precisas leis que incentivem as empresas nesse sentido”, defendeu.
Além-fronteiras é possível vislumbrar a infinidade de oportunidades de negócios que o mercado das artes oferece. No conjunto das actividades da indústria cultural e criativa, as artes visuais ocupam o segundo lugar de maior importância, logo após a televisão, com receitas avaliadas em 391 mil milhões de dólares e mais de 6,5 milhões de postos de trabalho, em 2013, de acordo com o relatório “Cultural Times: the first global map of cultural and creative industries, EY, 2015”.

Já de acordo com o Relatório do Mercado Anual de Arte, apresentado em Março passado na feira de arte e antiguidade de Maastricht, em 2015 o volume de negócios do sector situou-se perto dos 64 mil milhões de dólares, muito abaixo dos mais de 68 mil milhões registados em 2014.
Contrariamente à tendência mundial, os Estados Unidos da América registaram um aumento de 4% das vendas de arte, o que lhe permitiu consolidar a sua posição de liderança, passando a representar 43% do total de vendas de peças de arte. Entretanto, o Reino Unido recuperou a segunda posição, com 21% das transacções, lugar ocupado entre 2012 e 2014 pela China, onde as vendas desceram 23% em 2015.
De resto, o crescente interesse pela arte contemporânea pode ser mensurado pelas vendas do mercado internacional nos últimos anos. Em Angola, atendendo à actual crise económica e financeira, segundo Benjamim Sabby, houve um abrandamento das vendas, mas o sector mantém-se dinâmico em termos de actividades.



Para capitalizar o mercado, defende Dominick Maia-Tanner, “é imperioso captar parceiros e patrocinadores, e identificar oportunidades. O investimento numa indústria de belas artes poderá gerar um efeito multiplicador, com investimentos múltiplos, por exemplo, em marketing, desenvolvimento de novas marcas, criação de sites, produção de catálogos”, exemplifica o gestor das galerias Tamar Golan e Espaço Luanda Arte (ELA).
Por sua vez, Francisco Van-Dúnem volta a lamentar que “não existem no país coleccionadores em número desejável”, sendo que “a maior parte das obras de arte é adquirida pelos estrangeiros. Faltam bienais (excepto a ENSA-ARTE), leilões, feiras nacionais e internacionais e uma aposta séria no que concerne ao mecenato artístico”.

Com base no cenário que pinta, Van afirma que ainda não é possível viver apenas das artes em Angola, sendo que os poucos que o fazem são “bastante sacrificados”. “A razão desta situação deve-se à pouca procura desse tipo de produto cultural e, concomitantemente, à débil educação artística da maior parte das pessoas”, criticou.


2,5 milhões há seis anos. E hoje?

Nunca existiu registo estatístico sobre o mercado de arte angolano, porém, com base no circuito das galerias e dos coleccionadores, em 2010, Fernando Alvim avaliou o sector em cerca de 2,5 milhões de dólares, considerando os 50 artistas com quem tinha contacto e a possibilidade de cada um vender obras de arte a preços médios que rondavam os 3000 e 5000 dólares. “Este número é apenas relativo às obras que foram vendidas pelo artista uma vez”, disse Fernando Alvim à Economia & Mercado, salientando que a sua estimativa não contempla segundas e terceiras vendas das mesmas peças.
Questionado sobre o valor do mercado, o actual secretário-geral da União Nacional dos Artistas Plástico, António Tomás Ana (“Etona”), não arrisca a indicar um número, devido à ausência de estatísticas oficiais, mas revela que algumas obras de criadores nacionais chegam mesmo a custar 50 mil dólares.

Entretanto, olhando para o valor das obras de arte de instituições como a Fundação Sindika Dokolo, na altura seguradas por 30 milhões de dólares, mais as que se encontravam na posse de coleccionadores privados e instituições, as contas do curador Fernando Alvim apontavam para um valor global do mercado estimado em até 70 milhões de dólares, valores que já terão sido ultrapassados nos últimos seis anos. Aliás, na altura, Nuno Pimentel, um dos grandes coleccionadores privados de arte contemporânea africana, ostentava uma colecção de peças que cresceu de 1000 para pouco mais de 1500 obras este ano. Numa recente entrevista ao jornal digital Rede Angola, Nuno Pimentel admitiu que o valor das peças está perto de 1,5 milhões de dólares, na pior das hipóteses.