A rede hoteleira angolana tem registado significativos avanços nos últimos dois anos, num processo acelerado não só pela realização da Taça Africana das Nações (CAN 2010), em Janeiro último, mas sobretudo como resultado dos avultados montantes financeiros injectados pelo Governo para o desenvolvimento do turismo, sector que ainda se apresenta pouco diversificado.

Até 2012, o Governo angolano pretende construir 355 hotéis, incluindo três unidades escola com 96 quartos cada, dentro de um projecto de ampliação da rede hoteleira do país, cujo orçamento global está avaliado em 1,8 mil milhões de dólares norte-americanos.

Dentro deste investimento, encontra-se ainda a edificação de 165 unidades de duas estrelas em todos os municípios do país, avaliadas em 4 milhões de dólares, para além da construção de 60 hotéis sob responsabilidade privada, mas de propriedade angolana.

A iniciativa do Governo destina-se a fazer frente não só à carência de camas verificadas em todas as províncias do país, mas também estimular a redução dos preços praticados pelos operadores.

No entanto, se a hotelaria é um factor dinamizador do turismo por proporcionar condições de alojamento aos visitantes, também é verdade que, por si só, não é suficiente, devendo ser acompanhada por outros sectores como a agricultura e a indústria transformadora, principalmente.

Estes sectores ajudariam a baixar o actual valor inflacionado de preços verificado nos hotéis do país, cuja justificação se prende com os elevados custos operacionais a que estão sujeitos, como é o caso da água, luz, logística e manutenção.

Diversificar os recursos

A diversificação do sector, que consiste na exploração das potencialidades naturais e na criação de vários atractivos, é tida como outro agente impulsionador, uma vez que motivaria a entrada de mais visitantes.

Para João Gonçalves, Presidente da Associação dos Hotéis, Restaurantes e Similares de Angola (AHORSIA), com a criação de novas zonas turísticas, evita-se a excessiva concentração no litoral do país, o que impede que o interior beneficie deste motor de desenvolvimento e crescimento económico.

Dados do Gabinete de Estudo e Estatística apontam para um maior número de unidades hoteleiras no litoral. Luanda, obviamente, está em primeiro lugar, com 26 hotéis, 86 pensões, 8 aldeias turísticas e um aparthotel.

Curiosamente, a província do Cuanza-Sul vem a seguir com 14 hotéis e 32 pensões, 1 complexo turístico e 1 aparthotel e depois está Benguela, com 8 unidades hoteleiras e 21 pensões.

Outro facto curioso é que a Huíla, uma das províncias mais referenciadas em termos de potencial turístico, aparece depois de Malange, Zaire e Huambo em número de hotéis disponíveis. As duas primeiras têm seis unidades cada, a terceira quatro, ao passo que a província visada dispõe apenas de três hotéis e 35 pensões.

Turismo circunstancial

João Gonçalves é de opinião que o turismo que se faz no país é ainda circunstancial, por se promover o sector apenas em ocasiões especiais, em vez de se definirem políticas reitoras multi-sectoriais a médio e longo prazo.

O Presidente da AHORSIA fez estas declarações à Economia & Mercado, quando questionado sobre o impacto que o CAN 2010 exerceu sobre o turismo.

“O CAN foi uma grande iniciativa. Mobilizou o país todo, teve os seus efeitos positivos, mas infelizmente não teve o alcance desejado. Gostaríamos que a partir dele se estabelecessem determinadas metas, não só ao nível do turismo, como a nível de outros sectores adjacentes a este”, sublinhou.

Na sua opinião, a construção de novas unidades hoteleiras não é suficiente para a dinamização do turismo, pois é necessário que também se invista noutros sectores como a agricultura e a indústria transformadora, por serem fornecedores de bens e equipamentos.

João Gonçalves chama a atenção para o facto de grande dos produtos consumidos em hotéis serem importados, o que pode ser evitado caso as autoridades façam uma inventariação das potencialidades do país e de seguida criem mecanismos para a sua industrialização.

 “Temos é que fazer todo um trabalho nesta direcção”, insiste João Gonçalves, acrescentando que, recentemente, um grupo da organização que dirige esteve na província do Bengo, onde descobriu “frutos que Luanda não conhece”.

“Então, porque é que não aproveitamos estes produtos para transformá-los em refrigerantes, sumos ou gelados, coisa que, embora pequena, acaba sendo parte das referências que o turista leva de Angola?”, questiona-se.

Por outro lado, prossegue, a execução de projectos similares resulta na criação de mais postos de trabalho e na inclusão da sociedade.

Criar modelos nacionais

Depois de feita a inventariação das potencialidades do país, avança a mesma fonte, “pode-se pensar se o nosso turismo segue os padrões globais. Independentemente destes paradigmas, nós poderíamos criar modelos próprios em relação a aspectos culturais e naturais, porque senão teremos o turista a vir ver o que vê nos outros países”.

A este propósito, João Gonçalves lembra que o país é extremamente rico em recursos turísticos, mas reforça a necessidade de serem aproveitados mediante políticas apropriadas.


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