Angola tem um peso cada vez maior na bolsa portuguesa. A participação dos seus investimentos no PSI 20 subiu de 3,2% da capitalização bolsista das cotadas do índice, no final de 2009, para 3,8% em 2010, valor que corresponde a um aumento de 18%.

Esta tendência de reforço no capital das empresas portuguesas, segundo os analistas, deverá continuar, devido, designadamente, ao interesse da Sonangol em ter uma participação directa na Galp Energia, e à luz verde dada pelo Banco de Portugal para que a petrolífera angolana chegue aos 20% no Millennium BCP.

Dados recentes dão conta de que os valores dos investimentos angolanos no PSI 20 estão agora avaliados em 2,43 mil milhões de euros, mais 12% do que os 2,18 mil milhões aplicados no final de 2009. Estes números assentam em operações que envolvem menos de meia dúzia de empresas, mas só em 2010, a sociedade liderada por Isabel dos Santos, a Kento, comprou 10% da ZON Multimédia e a Sonangol reforçou a sua posição no BCP, ultrapassando já os 10%, sendo que tem actualmente luz verde do Banco de Portugal para avançar até aos 20%.

De acordo com as participações qualificadas reportadas até à data, o capital angolano está presente em quatro empresas cotadas, nomeadamente na Galp Energia, no Millennium BCP, na ZON e no BPI, detendo 15% (por via dos 45% que o capital angolano detém na Energia Amorim – empresa não cotada que é detentora de 33,34% da Galp Energia), 14,59%, 10% e 9,8%, respectivamente.

Octávio Viana, presidente da Associação de Investidores e Analistas Técnicos do Mercado de Capitais (ATM) adiantou à Economia & Mercado que “poderão existir, directa ou indirectamente, mais participações angolanas nestas ou noutras empresas cotadas portuguesas, mas encontram-se seguramente abaixo dos 2% necessários para terem de ser reportados como participação qualificada e dadas a conhecer ao mercado”.

Questionado sobre o interesse das empresas angolanas em investirem na bolsa portuguesa, o mesmo responsável diz que “há uma relação económica, social e cultural muito próxima entre Angola e Portugal, da qual resulta uma maior afinidade”, ou seja, uma ligação natural entre os dois países, “não obstante a distância geográfica que os separa”.

Portugal, continua Octávio Viana, “é um dos maiores investidores estrangeiros em Angola, salvo erro, o terceiro maior, nomeadamente devido à presença no mercado de bancos com capital português, como é o caso do Millennium BCP, do BPI e do BESA. A própria Galp Energia, detida também por portugueses, tem fortes interesses em Angola”.

Verifica-se, pois, “um claro interesse das empresas portuguesas em investir em Angola, quer na área da construção (com empresas cotadas portuguesa a terem grandes operações no país, como a Teixeira Duarte e a Soares da Costa), quer na área da indústria, ou dos serviços (como é o caso já referido dos bancos). Este interesse deriva quer dos factores culturais e sociais que já mencionei, mas também do facto de Angola ser uma das economias que está a crescer muito rapidamente”, lembra o presidente da ATM.

Octávio Viana sublinha, inclusive, que “perante o interesse e a presença das empresas portuguesas em Angola, das questões económicas, sociais e culturais que existem e que são reais, é muito natural que Angola também queira ter investimentos junto do seu maior parceiro comercial (fora do ramo do petróleo) e do seu maior fornecedor. O interesse de Angola é, por isso, um interesse legítimo e natural”, remata.

Maiores accionistas já serão angolanos

De acordo com informações recolhidas junto da bolsa portuguesa, as quais são obrigatórias e estão disponíveis para o mercado, não existe até ao momento nenhuma empresa cotada cuja maioria do capital social (superior a 50%) seja angolano.

Mas existem empresas cotadas em que os maiores accionistas detêm capitais angolanos, designadamente na ZON, em que a Kento Holding Limited detém 10% do capital social, ficando apenas atrás do banco estatal português, a CGD, que detém mais 1,75% do que a empresa de direito angolano.

Se consideramos ainda a posição que os capitais angolanos detêm no BPI, que por sua vez detém 7,89% da ZON, verifica-se que a influência do capital angolano na ZON pode ser maior do que as participações detida indirectamente.

O mesmo acontece no Millennium BCP,  em que a Sonangol é já o seu maior accionista, com quase o dobro do segundo maior accionista, que é a Teixeira Duarte.

Na Galp, a Energia Amorim detém uma participação idêntica à dos italianos ENI, o que torna a posição angolana, em conjunto com Américo Amorim, uma posição de controlo.

No BPI, a Santoro, detida também por capitais angolanos, é a terceira maior accionista, a seguir aos bancos La Caixa e Itaú (de origem espanhola e brasileira, respectivamente).

E como é que o mercado português e os seus analistas, em particular, reagem a esta situação? Para Octávio Viana, presidente da Associação de Investidores e Analistas Técnicos do Mercado de Capitais, trata-se de uma presença e de um interesse estratégico e natural. “Se atendermos bem às participações detidas, vemos que na sua maioria o são em empresas com forte presença em Angola e em pontos nevrálgicos da economia angolana, como é o caso da banca.

Perante isto, é natural que Angola tome posições nas casas mãe dessas empresas com presença no seu país, como fez no Millennium BCP e no BPI. Mais evidente é ainda na Galp Energia, devido ao petróleo”.

Ou seja, continua Octávio Viana, “a compreensão dessas participações está muito para além do racional financeiro que cada operação, em particular, comporta para o accionista em questão. Há sim um posicionamento estratégico que pode, inclusivamente, permitir a Angola entrar noutros mercados europeus através de um parceiro natural como é Portugal”.

Acresce ainda que, “para Portugal, este parceiro comercial é também muito benéfico, não só por ser um dos maiores fornecedores de Angola, como pela liquidez que os investimentos angolanos trazem para as empresas lusas, nomeadamente numa altura de crise onde podem ter de se ir financiar ao mercado accionista e onde será determinante ter uma estrutura accionista capitalizada capaz de responder ao pedido de reforço de capitais”, sustenta a mesma fonte.

Depreende-se, assim, que estas participações, ao não serem meramente financeiras, “podem ter o reverso da medalha, ao servirem para influenciar determinadas decisões que não sejam do real interesse da sociedade, mas sim de um país ou de uma determinada economia ou outras empresas desse país/economia.

Mas até isso o Código das Sociedades Comerciais acaba por proteger, pelo que diria que o rácio risco/recompensa de deter interesses angolanos ou de outros países nas empresas cotadas na bolsa portuguesa, é sempre bom quando tudo é devidamente ponderado.

Aliás, o mercado accionista é eficiente, exactamente porque cada um defende os seus interesses livremente, sem se submeter a um qualquer juízo amoral, obviamente sempre dentro da regulação existente”, conclui Octávio Viana.