Potência militar, economia em alta e influência determinante no mundo islâmico são os factores que sintetizam o peso determinante da Turquia na geopolítica mundial e na conciliação entre os mundos árabe e ocidental. Porém, os recentes protestos expõem as vulnerabilidades da democracia turca e os receios de uma islamização.
Taskim tornou-se, nas últimas semanas, o foco das atenções mundiais. No centro de Istambul, uma onda de protestos populares estremeceu o Governo islamita, liderado por Tayyip Erdogan. Tudo devido a um projecto de reconstrução no parque Gezi, nas imediações da referida praça, que visa edificar uma nova mesquita e a réplica de uma fortificação otomana. Aliás, outro dos grandes projectos urbanísticos – o da construção de uma terceira ponte sobre o rio Bósforo - será denominado ponte de Selim, o grande califa do Islão, por, no século XVI, ter conquistado o Sultanato ao Egipto.

As pessoas contestaram, argumentando a degradação ecológica da capital turca, mas rapidamente os protestos ganharam dimensão nacional, sobretudo depois das forças policiais terem recorrido a canhões de água, spray de pimenta e gás lacrimogéneo para dispersar os manifestantes, provocando vários mortos.

Os opositores do regime procuram aproveitar as palavras de ordem “Renuncia, Governo” para muito mais do que a mera contestação ao futuro do parque Taksim-Gezi. Convenhamos que a amplitude que atingiu o movimento popular não corresponderá apenas à sensibilidade ambiental, de protecção das árvores do parque, mas de receio por uma desenfreada onda de urbanização, betão e mercantilismo importado do Ocidente. Da mesma forma que os opositores argumentam de que este tipo de projectos são uma forma subtil de Erdoðan islamizar a Turquia, o que levanta, também, receios na comunidade internacional.

A ascensão do Islão político na Turquia tem sido o ponto central dos receios europeus numa adesão turca à União Europeia, o que tem vindo a ser sistematicamente repetido no Parlamento Europeu. O peso populacional da Turquia – 75 milhões de habitantes – confere-lhe um número de votos determinante no âmbito do processo de decisões do Conselho e do Parlamento europeus, quando o país se tornar membro de pleno direito da União.

Entre a Nato e o Islão
Erdogam é o homem forte da Turquia e do Partido Islamita Justiça e Desenvolvimento (AKP), e, por isso, tem procurado travar quaisquer tendências autonómicas dos curdos.  Este confronto secular islamistas-curdos tem sido a maior ameaça à estabilidade política, com o Primeiro-Ministro a tentar desenvolver esforços para viabilizar um "acordo de paz" depois de anos de confronto com o PKK (Partido Trabalhista do Curdistão), liderado por Abdullah Ocalan.

A verdade é que os 12 milhões de curdos representam 20% da população total da Turquia e concentram-se numa província estratégica para concretizar a parceria comercial com a União Europeia. É que, na vizinha Síria, o regime de Assad libertou parte do território para que os curdos ganhassem autonomia na região fronteiriça, o que permitiu maior proximidade com os curdos iraquianos e com o PKK, cujas bases militares estão sediadas no norte da Síria, funcionando como tampão para as acções dos aliados. A preocupação do regime de Istambul é que os curdos venham a reforçar a sua posição no norte do Iraque onde se encontram importantes reservas de petróleo.
Na arena política, o Partido Republicano do Povo (CHP) é o principal opositor do actual Executivo e, por isso, tem procurado capitalizar o descontentamento em busca de um eventual “governo de salvação nacional, a dois anos das próximas eleições gerais. Mas Erdogan tem merecido um apoio implícito dos EUA e da UE. Membro da Nato, a Turquia acolhe várias bases militares da organização, sem esquecer que, há dez anos, pediu assistência para garantir segurança no decurso da guerra do Iraque. Esta proximidade estratégica, depois do apoio à intervenção na Líbia para derrubar Khadafi, explicam porque, no final de 2012, Erdogan tenha, numa reunião especial da Nato, anunciado que quaisquer tropas sírias que se aproximassem da fronteira turca seriam consideradas alvos militares.

Além da Nato, a Turquia pertence à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e, desde 1999, mantem negociações com vista à adesão plena à UE. Desde há muito reconhecido com uma referência na aproximação dos mundos árabe e ocidental, o crescente peso económico do país é evidente, sendo já considerada a 17ª economia mundial e a 8ª europeia.
Daí que a União Europeia tenha procurado reforçar, nos últimos anos, uma visão de estabilidade, segurança e conciliadora da Turquia na região e no mundo. Com este revés, Erdogan necessita de provar que efectivamente pretende promover a democracia e a estabilidade da região.

Como sublinha, Feyzi Baban, professor de ciência política na Universidade de Trent, a actual situação evidencia que “a consolidação da democracia ainda não está completa” e, sobretudo, acrescenta “ainda mais instabilidade para o Médio Oriente, já repleto de conflitos étnicos”.

Finalmente, e mais importante, “torna-se muito difícil argumentar que o país pode ser um modelo para o Médio Oriente”.
Erdogan ainda usufruiu de apoios populares importantes, até pela ascensão económica dos últimos anos, e porque “os rivais ou são demasiado secularistas ou muito nacionalistas. Não existe uma alternativa, seja liberal ou social democrata”, argumenta Ramazan Kilinc, professor nos EUA.

O BRIC europeu
Inspirados no êxito da sigla que a Goldman Sachs inventou para as economias emergentes do final do século XX – BRIC, ou seja Brasil, Rússia, Índia e China – muitos centros de investigação têm procurado reflectir numa sigla o potencial de outras economias para as próximas década.

A Turquia, tida como o Bric europeu, surge na maioria dos acrónimos desenvolvidos para os emergentes do século XXI. A localização geográfica é estratégica, ligando a Europa à Ásia, favorecendo, assim, um acesso directo quer aos mercados árabes, quer aos mercados das ex-repúblicas soviética, quer, especialmente, aos mercados abastecedores de energia.

O país tem uma ampla população activa, que corresponde a 2/3 do total, mas que poderá chegar aos 100 milhões em meados do século, traduzindo um mercado de grande dimensão para os parceiros internacionais.

Na análise do Economist Intelligence Unit (EIU), a agricultura ainda representa 24,6% do emprego e 8,9% do PIB, a indústria contribui com 28,1% do PIB e 26% do emprego, e os serviços empregam 49,4% da população activa e geram 63% da riqueza turca.

Em termos de especialização produtiva, os têxteis são um dos sectores-chave, correspondendo a mais de 15% da produção industrial e 18% das exportações, além de empregar mais de um terço dos trabalhadores do sector secundário. Com um crescimento médio de 9% na última década, o segredo do sucesso dos têxteis turcos assenta não apenas na disponibilidade de matérias-primas, dado que a Turquia é o sétimo produtor mundial de algodão, mas também na proximidade de mercados europeus e no desenvolvimento de competências na área do design e da moda, evidenciando uma forte aposta na inovação.

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