Nos últimos dez anos, Angola obteve resultados económicos impressionantes. Depois do alcance da paz, o país precisou de apenas uma década para triplicar o seu rendimento per capita. Entretanto, face a esta realidade, a carência das infra-estruturas físicas ao nível dos portos e aeroportos, telecomunicações fixas e redes de electricidade, bem como os recursos humanos continuam a ser os calcanhares de Aquiles que condicionam a evolução da economia angolana. Para o engenheiro Mira Amaral, presidente do BIC em Portugal, apostar no desenvolvimento de tecnologias para o sector primário como agricultura, silvicultura, pecuária e pesca pode reduzir a taxa de importação.

Para amenizar a problemática da ‘petrodependência’ e tornar sustentável o rendimento económico que Angola tem vindo a registar, a aposta na diversificação sectorial da economia deve ser privilegiada porque dará prioridade às actividades com maior potencial económico, segundo a opinião do engenheiro Mira Amaral, presidente do banco BIC de Portugal.

A fonte acrescenta que os sectores primários e secundário continuam numa situação bastante precária do ponto de vista tecnológico e o seu desenvolvimento passa por fortes investimentos em tecnologias de ponta. Porém, não devem ser descurados, pois têm um enorme potencial no crescimento económico e na criação de postos de trabalho. O responsável adianta ainda que a estratégia de investimentos na agricultura, na silvicultura, na pecuária e nas pescas reduzirá igualmente a actual taxa de importação, que cresceu cerca de 0,6% em 2013.

“O petróleo, neste momento, deve ser uma fonte de financiamento para diversificar a economia angolana para outros sectores. Aliás, Angola tem necessidade de investir no sector primário, secundário, transformador, noknow-how e na capacidade técnica”, defende o bancário.

Investimento Directo Estrangeiro é fundamental

Angola é o sétimo país do continente africano que recebeu mais projectos de investimento estrangeiro no período de 2003 a 2011. No entanto, segundo Mira Amaral, é fundamental que tal investimento se estenda aos sectores primário e secundário nesta fase de reindustrialização e desenvolvimento socioeconómico do país. O Investimento Directo Estrangeiro (IDE) traz oknow-how e as competências tecnológicas que permitirão a formação profissional dos trabalhadores angolanos, o enquadramento da gestão empresarial nos quadros universitáriosnacionais, bem como parcerias entre empresas criadas com IDE e empresários angolanos, ajudando também a fortalecer uma classe empresarial angolana com uma visão mais extensa da economia global.

Nos seus estudos, Mira Amaral considera o IDE como a chave para Angola progredir nos indicadores internacionais de competitividade e na aceleração da transição da economia da fase por si considerada factor-driven,muito dependente da exportação de petróleo em bruto, para aefficiency-driven, orientada para o crescimento e diversificação dos sectores de produção interna não ligados à actividade petrolífera.

Apostar nas competências

Os estudos de Mira Amaral notificam que, apesar de estarem criadas as condições básicas para a normalização da actividade económica em Angola,possibilitando a mobilidade interna e fomentando a actividade comercial e o investimento, a carência de infra-estruturas físicas, designadamente nos portos e aeroportos, telecomunicações fixas e redes de electricidade, e nos recursos humanos, continua a condicionar a evolução da economia angolana.

Segundo a análise do comportamento das pequenas e médias empresas,desenvolvida pelo Angola Tech, apesar do crescimento e qualificação da oferta formativa no ensino superior na área das tecnologias de informação, Angola verifica ainda carências significativas ao nível dos recursos humanos. No entanto, estas faltas têm vindo a ser supridas pelas empresas através da realização de formações internas no local de trabalho ou no exterior.

Em relação a esta questão, Salim Valimamade, director da Católica Luanda Business School é da opinião de que Angola deve adoptar um plano estratégico que possa facilitar uma melhor qualificaçãodo seu capital humano.

 “Este processo desenvolve-se através de investimentos no sistema de educação de base, nomeadamente primário, secundário e no ensino técnico-profissional. Ademais, nãobasta criar universidades só por criar, deve haver empresas ou instituições do Governo relacionadas com estas universidades para aproveitarem e tirarem vantagem do conhecimento produzido”, explica o consultor, acrescentando que a outra solução seria a apostar em parcerias com empresas estrangeiras, ir em busca deknow-how e de competências no estrangeiro.

Na mesma linha de raciocínio,o engenheiro Mira Amaral esclarece que as empresas angolanas de base tecnológicadevem ter o apoio das empresas estrangeiras mais avançadas tecnologicamente e estas últimas devem também ligar-se às universidades, pois, além de trazerem tecnologias avançadas, transmitem as suas experiências aos jovens angolanos.

“Angola pedecapital estrangeiro, mas não percebe que este tem de vir associado com os recursos humanos.O país está a formar muitos jovens universitários, mas se estes não tiverem enquadramento com pessoas mais velhas e mais experientesquando chegamàs empresas, perdem-se”, afincaMira Amaral, ressaltando a importância do ensino técnico profissional e dos quadros intermédios para a economia angolana.

“Épreciso perceber também que não basta formar engenheiros e economistas universitários, deve-se formar quadros médios e intermédios, foi uma coisa que Portugal esqueceu durante muitos anos e espero que Angola não cometa o mesmo erro”, conclui.


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