A Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) já vale 4% do produto interno bruto (PIB) mundial, mas pode duplicar o valor se os políticos e empresários apostarem a sério na economia e houver mais comunicação entre os Estados para juntar a procura de um país à oferta de outro, consideram os especialistas ouvidos pela Economia & Mercado aquando da criação da Confederação Empresarial dos Países de Língua Oficial Portuguesa (CE-PALOP).

Os empresários da CPLP apostam em dar uma nova dinâmica a uma área que junta mais de 250 milhões de pessoas, mas que ainda enfrenta dificuldades nas trocas comerciais entre os seus membros, por exemplo ao nível do financiamento e das barreiras do comércio internacional.

Dez anos depois da sua criação a Confederação Empresarial da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), quer imprimir mais dinamismo reactivando a dimensão económica da CPLP e a actividade empresarial dos PALOP, que, para os países africanos, tem estado adormecida.
Angola foi contemplada para albergar a sede da Confederação Empresarial dos Países de Língua Oficial Portuguesa, uma instituição que tem o objectivo de promover o fortalecimento da classe empresarial africana e das suas economias. A sua constituição insere-se no âmbito da progressiva afirmação e autonomia dos países africanos no seio da CPLP.

O presidente da CE-PALOP, Francisco Viana, adianta que um dos principais objectivos da organização é promover o desenvolvimento equilibrado da cooperação entre os agentes económicos públicos e privados dos países participantes.

Francisco Viana argumenta que estão identificadas acções para que a criação da comunidade seja efectiva, apesar de haver uma descontinuidade territorial entre os países por não estarem próximos uns dos outros em fronteiras terrestres.

O presidente afirma estar convicto de que esse dinamismo vai permitir que a classe empresarial de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe trabalhe em conjunto para o crescimento económico e social dos respectivos Estados. “Estamos satisfeitos pelo facto de a liderança angolana entender que devemos passar à acção e fazer com que a comunidade tenha um pilar económico forte, o que marca uma nova era na cooperação entre os PALOP”, salienta.

Francisco Viana aponta como prioridades da CE-PALOP a capacitação dos empresários, a melhoria dos transportes nas ligações entre os Estados membros e o fomento do agro-negócio. “A não existência de rotas marítimas complica a transportação dos produtos, pois são necessárias muitas voltas que aumentam os custos de exportação, por isso precisamos de trabalhar com os portos no sentido de começar a encurtar as ligações”, avança.

CPLP almeja representar 10% do PIB mundial

O presidente da Confederação Empresarial da CPLP, Salimo Abdula, reclama uma política diplomática mais virada para a economia. “A riqueza no espaço lusófono pode passar de quatro para 10% do PIB mundial numa década e meia, se os países se juntarem e apostarem numa verdadeira comunidade económica, criarem mais-valias sobre os abundantes recursos naturais e usarem a abençoada separação geoestratégica”, afirma.

A livre circulação de pessoas, bens, serviços e capital é, aliás, um tema incontornável quando se fala com o presidente da Confederação Empresarial da CPLP. Salimo Abdula não tem dúvidas de que esse é o caminho, até porque, já antecipando as críticas sobre a dificuldade de harmonizar regras rígidas como as da União Europeia ou do Mercosul sobre a abertura de portas, afirma que a livre circulação no contexto da CPLP “é um desafio, não é um problema, e só depende da sensibilidade política”.

Há discussão sobre o interesse na introdução de uma moeda única neste território, segundo Francisco Viana, mesmo admitindo que essa é uma possibilidade ainda remota. “Quem sabe, um dia. Sonhando tudo é possível. Mas neste momento estamos muito longe disso. Primeiro temos de saber se há vantagens. Já iniciámos esse debate e haveremos de chegar a alguma conclusão”, disse Francisco Viana à Lusa.

Consolidar parcerias para interagir melhor

Já para o ministro da Economia, Abraão Gourgel, o ambiente de negócios na comunidade "ainda continua a retrair o investimento estrangeiro". "É preciso tornar cada vez mais atractivo o ambiente de negócios nos nossos países, libertando-nos de amarras burocráticas e desnecessárias que impedem o nosso crescimento. Esta classe empresarial deve ser criada com base na participação das micro, pequenas e médias empresas, com o objectivo de dinamizar as economias dos PALOP e, consequente, o aumento do emprego. Os recursos humanos e as matérias-primas são imprescindíveis em todo esse processo”, defende.

Já o secretário executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para África, Carlos Lopes, vinca que com mais investimentos já é possível elevar os níveis de produção dos países membros. “Como se pode compreender que em África, onde cerca de 60 por cento da sua população se dedica à agricultura, apenas dez por cento deste valor é aproveitado?", questionou.

Saiba mais lendo a edição impressa de Agosto, nº119.

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