As dificuldades e o caos que caracterizam o trânsito de Luanda são sobejamente conhecidos e afectam milhões de residentes da capital, pois de acordo com as Nações Unidas, Luanda encontra-se entre os cinco maiores aglomerados populacionais de África com cerca de 5 milhões de habitantes. Assim, não é de estranhar que este seja um tema preocupante, principalmente porque afecta as empresas e a economia do país.

Comecemos com um exemplo:
Félix Maciel, 45 anos, casado, licenciado em Economia, pela Universidade Agostinho Neto, funcionário público há mais de vinte anos (Chefe de Departamento numa Direcção Nacional de um Ministério), com residência no Lar do Patriota. Local de trabalho: Mutamba, Luanda.

Filomena Maciel, esposa, 38 anos, enfermeira há mais de 10 anos, trabalha numa Clínica, perto do Posto de Identificação da Samba. As duas filhas do casal, Karina e Ângela, um colégio privado, próximo do local de trabalho da mãe.

Numa distância aproximada de 22 Km (da residência ao local de trabalho do Sr. Félix), via Estrada da Samba, o tempo médio de viagem seria de 30 minutos (num domingo, ao princípio da manhã). Mas num dia normal da família Maciel, ou seja, sem chuva, sem quaisquer acidentes, e numa viatura recente, com ar condicionado, como é o seu dia?

Se a família se levantar às 4h da manhã e sair de casa às 5h, a esposa e as filhas chegam aos seus destinos perto das 5h30, e o Sr. Félix chega ao seu local de trabalho perto das 6h. Depois de já ter estacionado a sua viatura, passou 1h sentado na viatura, desde que saiu de casa (aproveitando ainda para dormir na sua viatura, pois a porta do Ministério só abre às 7h30).
Caso a família se atrase, e saia de casa apenas às 7h, todos chegaram atrasados, e o Sr. Félix, chegou ao seu trabalho perto das 10h (depois de ter passado mais de 3h sentado).

Ao final do dia, na hipótese de o Sr. Félix sair perto das 17h, apanha a esposa e as filhas perto das 18h30 e a família está em casa por volta das 19h30. Passou assim cerca de 2h30 sentado na viatura.
    
Os efeitos no ritmo de vida desta família
Como o tempo livre à noite, durante a semana é pouco, o Sr. Félix  acaba por não ter muito tempo para dar atenção à sua própria família, e muito menos tempo ainda para socializar e encontrar outros familiares e amigos ou dedicar-se a outras actividades extra-profissionais.

Quanto às filhas Karina e Ângela, estas veem o rendimento afectado. Como o dia começa muito cedo, têm revelado cansaço e sonolência ao longo do dia. Além disso, têm tido dificuldade em se concentrarem e estarem com atenção nas aulas. Acresce que ao chegarem a casa, muitas das vezes estão demasiado cansadas para fazerem os trabalhos que ainda trouxeram da escola, com a necessária frescura, ou ainda para estudar.

A D. Filomena, que desempenha uma profissão de grande exigência pessoal, acusa igualmente o cansaço originado pelo ritmo da semana. Como a juntar ao ritmo diário, ainda tem de preparar os lanches das filhas e cuidar de todas as lides domésticas, nunca consegue deitar-se antes da meia-noite, dormindo em média pouco mais de 4h por noite, na semana.

Isso reflecte-se no cansaço e entorpecimento que sente nalguns períodos do dia, tendo como consequência, um trabalho mais lento, diminuição da atenção e algumas falha cometidas nos tratamentos que faz.

Similarmente, o Sr. Félix vê o seu ritmo normal de trabalho diário afectado pelo excessivo número de horas que passa no trânsito, e pelo stress provocado pela atenção redobrada que a condução em Luanda requer. De facto, tem, muitas vezes, maior dificuldade em se concentrar no que está a fazer, e tem consciência que o rendimento do seu trabalho em geral não é o melhor. Isso agrava-se quando acontecem acidentes no caminho ou quando chove em Luanda. Estes dias então são verdadeiramente caóticos...

Alguns números do Sr. Félix no trânsito...
No cenário apresentado, o Sr. Félix passou 4,5h/dia sentado na viatura, 5 dias/semana. Isso perfaz 22,5h/semana e cerca de 100h/mês. Se tiver um mês de férias por ano, terá despendido cerca de 1 100h/ano, sentado no trânsito...

Porém, se o tempo médio de viagem entre a sua residência e o local de trabalho for de 30 minutos, em vez das 4,5h/dia, o Sr. Félix passaria apenas 1h/dia sentado no trânsito. Isso corresponderia apenas a 5h/semana, cerca de 22h/mês (ou 250h/ano).

Como o horário semanal da Função Pública são 37h (163h/mês), significa dizer que actualmente o Sr. Félix passa por ano, sentado no trânsito, o equivalente a 7 semanas de trabalho, que seriam reduzidas  para apenas 1,5 semanas, no cenário desejado.
Neste caso, a perda de produtividade do Sr. Felix, por não estar disponível para trabalhar (devido ao tempo de viagem que passou sentado na sua viatura entre a sua casa e o local de trabalho), foi de 5,5 semanas de trabalho, ou de 850h por ano.

O trânsito e a produtividade
Produtividade deve ser entendida, como uma relação (ou índice) entre os meios (recursos) que entram num sistema organizacional, ao longo de um determinado período de tempo, e as saídas geradas por esses meios (recursos) no mesmo período de tempo.

Deste modo, empresas, organizações e até Estados, podem monitorizar a produtividade, e assim saber quão bem os recursos estão a ser utilizados para converter as entradas em saídas, na produção de bens ou serviços.

Gestores e responsáveis de decisão, preocupados com o desempenho das organizações ou empresas que dirigem, na sua eficiência e na sua eficácia, podem, pela escolha adequada dos índices de produtividade, ter indicações seguras, dos resultados das medidas e opções que são tomadas em cada momento.

*Para ler mais adquira a edição impressa referente ao mês de Julho de 2013