O resultado do referendo escocês – a vitória do NÃO à independência – levou uma certa acalmia ao panorama político da Europa Ocidental, fazendo dissipar algumas das nuvens, bastante carregadas, que já pairavam por lá, com especial destaque sobre a Espanha e a Bélgica, onde as tensões étnicas são visivelmente mais fortes.

A profundidade dos debates dentro e fora do Reino Unido permitiu escalpelizar todas as implicações advenientes de uma eventual separação da Escócia do Reino Unido. As implicações económicas tomaram o assento principal no palco das discussões, com cada um dos campos políticos antagónicos a esgrimir os melhores argumentos a favor da sua causa.

Ficou, pois, evidente a prevalência dos argumentos económicos. Mesmo que, a espaços, lá fossem sobressaindo também motivações de ordem política pura, como, por exemplo, uma eventual exclusão da Escócia da União Europeia, caso vencesse o SIM.

De qualquer modo, o que resta para a memória futura é a chamada “guerra dos números”, como alguns analistas resolveram apelidar o debate em torno da questão escocesa.

Hoje, praticamente toda a gente já sabe – pelo menos os mais atentos e melhor informados – que o PIB escocês ronda os 160 mil milhões de euros, que o seu PIB per capita anda em torno de 33 mil euros, para uma população de pouco mais de 5 milhões de habitantes, a residir num território de pouco menos de 80 mil quilómetros quadrados.

Ficámos ainda a saber que o PIB per capita da Escócia é superior ao do Reino Unido (28 mil euros), uma diferença que tem sobretudo a ver com o facto de o petróleo britânico estar especialmente localizado em território escocês. E mais: que, sem o peso do petróleo, a comparação dos PIB's inverter-se-ia ligeiramente, virando a favor do Reino Unido.

A economia da Escócia representa cerca de 9% do PIB do Reino Unido, o que é bastante significativo, se olharmos para a sua diversidade: produção (exportação) de petróleo e gás, alimentos e bebidas (neste último caso, com destaque para os seus famosos whiskies), mas também com enorme relevo para as indústrias biomédica e aeroespacial. Não obstante a enorme concentração das reservas petrolíferas britânicas estar em território escocês, o seu peso específico no PIB não ultrapassa 4,1%, o que mostra a sua grande diversificação.

Ficámos, porém, a saber que 60% das exportações da Escócia se dirigem para o Reino Unido, tornando esses territórios muito inter-dependentes. O que ainda se acentua mais se nos lembrarmos que o sistema financeiro da Escócia se articula com o resto do Reino Unido, ao ponto de os principais bancos escoceses – a começar pelo Royal Bank of Scotland - ter ameaçado transferir a sua sede para a Inglaterra, caso o SIM vencesse. O mesmo sucedeu com o Standard Life que, inclusive, ameaçou transferir pensões e outras poupanças de clientes britânicos para fora da Escócia.

Reparei que os argumentos de carácter histórico foram relegados para plano secundário, dada a premência das questões de ordem económica. Certamente, isso contribuiu para acentuar o modo “civilizado” como tudo, afinal, decorreu. Caso a disputa principal tivesse assentado na memória histórica – na história dos conflitos e guerras que prevaleceram no passado – certamente teria havido uma maior exacerbação dos ânimos, como é habitual noutras paragens.

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