Não é novidade que Angola apresenta uma Taxa de Actividade Empreendedora na ordem dos 23%, mas o que é de destacar é que a grande maioria destes negócios praticamente não tem tempo de ver a luz do dia.


 

Angola foi identificada como a economia com a maior Taxa de Actividade Empreendedora Early-Stage (TEA) entre os 43 países analisados no Global Entreperneurship Monitor de 2008, num estudo tornado público em meados do ano passado e que contempla nações da Europa à América, passando por África, Ásia e Médio Oriente.

Como resultado, e mesmo sendo uma economia orientada por factores de produção, ou seja, essencialmente suportada pelo sector primário, em particular a mineração e extracção de matérias-primas, e por uma indústria ainda muito embrionária assente na produção de bens de consumo relativamente simples, a verdade é que o país apresenta uma TEA de 22,7%, bem acima dos restantes países analisados, os quais apresentam uma média de 10,5%.

Mas é de perguntar que tipo de empreendedorismo é este?

E a resposta, não só expõe algumas das fragilidades da economia nacional, como remete para a necessidade de, rapidamente, se caminhar para uma estrutura mais orientada para a eficiência e inovação, ou seja, para economias de escala com incorporação de maior valor acrescentado, assim como para os serviços e, dentro destes, as áreas de tecnologias de informação e comunicação.

É que, considerando o universo dos 22,7% de empreendedores existente em Angola, cerca de 85% destes criam negócios que não duram mais de 3 meses, fazendo com que o nosso empreendedorismo não chegue a criar raízes e a transformar o panorama do tecido empresarial nacional. Nascem muitos negócios, mas quase todos morrem praticamente à nascença.

Mais, para além do anterior, fica-se ainda a saber que no que aos negócios nascentes diz respeito, Angola tem cerca de 5 vezes mais empreendedores desta natureza do que os restantes 43 países analisados.

Dito de outra forma, temos uma realidade em que quem representa a maioria da classe dos empreendedores são indivíduos que o fazem por necessidade e que, em média, não conseguem manter uma remuneração do negócio por um período superior a um trimestre.

De facto, e como a necessidade é o factor que motiva cerca de metade da actividade empreendedora no país, chegamos à conclusão de que temos muitos empreendedores que entram no mundo dos negócios por motivos de sobrevivência, agarrando qualquer biscate que lhes aparece, e poucos empreendedores por oportunidade, os quais apresentam o perfil do empresário que, identificando uma conjuntura favorável ao negócio, desenham uma estratégia e desenvolvem uma estrutura técnica, financeira e humana capaz de responder eficazmente à concepção e desenvolvimento sustentável de um produto ou serviço.

À espera de melhores dias

Iniciar um negócio não é fácil para praticamente ninguém, sendo isto verdade em Angola ou noutra parte do mundo. Há que passar das ideias à concretização de projectos empresariais e comercialização de produtos e serviços, sendo que isto implica um longo e, por vezes, espinhoso caminho.

Se acrescentarmos que em Angola existem maiores constrangimentos de ordem burocrática, dificuldades de acesso ao crédito, ausência de prestadores de serviços de apoio ao desenvolvimento dos projectos, lacunas ao nível da formação, problemas no domínio das infra-estruturas básicas, e ainda um insuficiente nível de comprometimento público para apoiar adequadamente as iniciativas empreendedoras e estimular o espírito empresarial, temos que as dificuldades dos nossos empreendedores são mais que muitas.

Mais, como em oposição ao empreendedorismo induzido pela oportunidade, o qual reflecte o desejo de aproveitar uma possibilidade de negócio existente no mercado, através da criação de uma empresa por iniciativa própria, o que Angola tem é sobretudo empreendedorismo induzido pela necessidade, ou seja, decorrente da ausência de outras oportunidades de emprego e orientando os indivíduos para a criação de uma empresa porque acreditam que não possuem melhores alternativas, temos que, neste capítulo, Angola fica atrás da maioria das restantes economias analisadas e também das orientadas por factores de produção, como é o caso da angolana.

O que se passa é que os nossos empreendedores são-no porque, acima de tudo, precisam de encontrar rendimentos que lhes garantam a subsistência quando o mercado é ainda incapaz de o fazer, nomeadamente proporcionando-lhes oportunidades para obter fontes de rendimento.
O cenário global é assim ainda bastante precário, e a realidade demonstra que 85% dos casos em que se verifica a iniciativa de criação de um negócio o mesmo não sobrevive ao enquadramento geral.

Daí que, uma leitura atenta deste quadro aponte para o facto de existirem muitos aspectos que aludem à necessidade de mais e melhores investimentos e apoios à criação de um ambiente e contexto nacional capaz de propiciar e alimentar o desenvolvimento do empreendedorismo e, em resultado, de uma classe empresarial nacional mais dinâmica, forte e sustentável.

Uma questão de perfil

Entre os problemas mais apontados quando se questiona a taxa de mortalidade dos negócios nascentes, a questão relativa à pouca formação e preparação da maioria dos empreendedores surge destacada na lista de entraves aos empreendedorismo.

De facto, estes são aspectos que, na opinião de Clotilde Saraiva, directora da empresa de formação, consultoria e realização de eventos International Talent, afectam a existência, ou não, de melhores empreendedores, pois “pessoas mais cultas são pessoas muito mais empreendedoras, nomeadamente porque não tendo medo do risco querem aprender e estão muito mais atentas à mudança, logo há uma maior probabilidade de terem ideias inovadoras”, defende.

Clotilde Saraiva adianta, a este propósito, que é desejável que o empreendedor apresente características como a “auto-confiança, o que significa não ter medo de fracassar, capacidade de tomar decisões e assumir responsabilidades, auto-motivado e com controlo de si mesmo, sabendo trabalhar e motivar equipas e sendo persistente, acima de tudo”, enfatiza.

Um outro aspecto é ainda “percebermos quais são as competências intrínsecas de cada um, pois se é verdade que à partida podemos empreender em todos os domínios, também é verdade que nem todos temos boas ideias e capacidades para as conseguir organizar adequadamente”, acrescenta.

Acresce que, “apesar de o empreendedor não ter que ser necessariamente o executante, e, deste modo, não ter que saber fazer o trabalho do dia-a-dia, deve conhecer o negócio e ter competências para gerir e motivar pessoas, por exemplo”, aponta.

Olhando para a realidade dos empreendedores nacionais, constata-se que, em linha com o fraco desempenho dos seus negócios, está igualmente a ainda insuficiente formação específica, assim como a dificuldade em elaborar estudos de mercado e de viabilidade económico-financeira, ou ainda de desenhar o processo de criação de um produto ou serviço, desde a sua concepção, até à distribuição, passando pelo preço e promoção.

CONDIÇÕES ESTRUTURAIS DO EMPREENDEDORISMO EM ANGOLA

No que se refere às condições estruturais do empreendedorismo no País, os resultados do estudo GEM Angola 2008 têm como principal fonte a sondagem a um conjunto de especialistas angolanos e indicam o seguinte:

Apoio Financeiro: Em termos gerais, o apoio financeiro aos empreendedores é considerado parcialmente insuficiente. Há uma percepção de que os fundos de amortização de dívida, os fundos disponibilizados por indivíduos a título privado ou os fundos de capital de risco são insuficientes ou inexistentes enquanto formas de apoio financeiro em Angola. No entanto, os peritos revelaram uma opinião mais positiva acerca dos subsídios governamentais.

Políticas Governamentais: A avaliação das políticas governamentais em Angola é, no geral, mais positiva do que noutras economias orientadas por factores de produção, porém, os peritos são de opinião que a burocracia, as regulamentações e os requisitos de licenciamento são excessivamente difíceis em Angola.

Programas Governamentais: A percepção geral é de que o apoio ao empreendedorismo através de programas empresariais em Angola é parcialmente insuficiente. Por exemplo, o apoio fornecido pelos parques de ciência e incubadoras de empresas a negócios novos e em crescimento é avaliado de forma substancialmente inferior ao que ocorre na média das restantes economias orientadas por factores de produção.

Educação e Formação: Em termos gerais, o sistema de educação e formação em Angola é visto como proporcionando um apoio parcialmente insuficiente ao empreendedorismo.

Transferência de Investigação e Desenvolvimento (I&D): O nível da suficiência de todos os aspectos ligados à transferência de I&D é avaliado com pontuações mais baixas do que nas restantes economias orientadas por factores de produção.

Infra-estrutura Comercial e Profissional: O apoio prestado pela infra-estrutura comercial e profissional aos empreendedores em Angola é avaliado como sendo pior, em média, do que nas restantes economias orientadas por factores de produção.

Abertura do Mercado/Barreiras à Entrada: É percepcionada uma mudança substancial, de ano para ano, nos mercados de bens de consumo e serviços, assim como nos mercados intra-empresas, reflectindo a gradual abertura destes mercados a novos concorrentes.

Acesso a Infra-estruturas Físicas: Todos os aspectos relacionados com o acesso a infra-estruturas físicas são avaliados como sendo substancialmente menos suficientes em Angola do que na média das restantes economias orientadas por factores de produção.

Normas Sociais e Culturais: A cultura nacional em Angola é vista como encorajadora do empreendedorismo em maior grau do que noutras economias orientadas por factores de produção.

Alguns erros que os empreendedores devem evitar

1. Ausência de estratégia

Muitas vezes, os empreendedores acabam por orientar o negócio ao sabor das circunstâncias e não de acordo com um plano de posicionamento estratégico, acabando por dispersar os seus recursos humanos e financeiros. Não definem elementos básicos como a área geográfica em que a empresa vai procurar clientes ou as áreas de actividade e os segmentos em que vai apostar.

2. Confusão ao nível táctico

Como a estratégia não está bem definida, os empreendedores acabam por não criar modelos de organização e de acção adequados, por exemplo, quanto ao preço, canais de distribuição ou publicidade, acabando, muitas vezes, por não ter em conta o que faz a concorrência.

3. Evitar ou escolher mal os sócios

Grande parte dos empreendedores pensa que não precisa de sócios e acha que o mais adequado é seguir sozinho para poder tomar as decisões que considera mais adequadas, não ter de partilhar o sucesso com ninguém ou, até mesmo, para não ter de admitir as suas falhas. Ignoram que o sucesso de muitos negócios deve-se à complementaridade dos sócios, em particular ao nível das competências, mas também das personalidades.

4. Não profissionalizar a gestão

Muitos problemas podem surgir quando os empreendedores não são capazes de admitir as suas limitações e de reconhecer que pessoas externas ao negócio podem profissionalizar a gestão e dar uma resposta mais adequada aos problemas e desafios que a empresa enfrenta.

5. Pensar numa recompensa imediata

Ficar rico é o sonho de muitos empreendedores, mas é preciso não esquecer que, para ganhar dinheiro é preciso muito esforço e dedicação. Antes de pensar em ficar rico, é preciso consolidar o negócio no mercado.

6. Falta de transparência e de sinceridade

A falta destes ingredientes, quer na relação do empreendedor com os seus colaboradores, quer com os seus investidores, pode levar à quebra dos laços de confiança.

7. Ausência de regras de governação corporativa

O empreendedor tem o hábito de chamar a si todas as funções de carácter administrativo e financeiro, não estando disposto a passar a responsabilidade a terceiros. Independentemente do número de pessoas, é importante definir papéis e cargos e até recorrer a entidades externas, por exemplo, na área da contabilidade, que ajudam a gerir melhor a empresa.