Aos 438 anos, Luanda, dia após dia, vai-se descaracterizando arquitectonicamente, argumentam alguns especialistas, para quem a cidade está a perder a sua história. Os velhos casarões, com os seus telhados múltiplos, vão desaparecendo e dão lugar a toneladas de betão armado e as demolições em série continuam sem critérios, para que os grandes edifícios vidrados e infra-estruturas modernas surjam.

Em declarações à imprensa, Ângela Mingas, do Centro de Estudos e Investigação Científica de Artes, Arquitectura, Urbanismo e Design da Universidade Lusíada de Angola, defende constantemente a necessidade de se encontrarem soluções de habitabilidade que reflictam a identidade cultural de Angola na construção de futuras cidades.

O Centro de Estudos e Investigação Científica de Artes, Arquitectura, Urbanismo e Design (CEIC-AAUD) da ULA juntou-se a uma associação de amigos e residentes de Luanda e trabalham há mais de seis anos em parceria numa campanha de sensibilização pública para mostrar o património arquitectónico e os vários períodos históricos de consolidação da cidade.

A arquitecta Ângela Mingas afirma que deve haver mais cuidado com o património arquitectónico de Luanda, por ser parte fundamental da cultura nacional que está perigada face ao actual crescimento de Luanda, que altera a estrutura de alguns edifícios da capital e força o seu desaparecimento.

A especialista reconhece que o crescimento da cidade é inevitável, embora tal não deva ser motivo para o desaparecimento de todo o património emblemático da capital, acrescentando que os factores económicos estão por detrás deste desaparecimento, pois os bairros estão cada vez mais valorizados, mas espera que haja um decréscimo deste fenómeno.

Já o arquitecto Joaquim Pinto avança que o processo de urbanização é dinâmico em todo o mundo, mas todo e qualquer procedimento do género não pode apagar a história da cidade, pelo contrário, deve registá-la e acentuá-la. Acrescenta que falta a Luanda uma conjugação entre o antigo e o novo, fundamentalmente na arquitectura. “Para que haja a existência do novo e do velho tem que haver uma catalogação dos edifícios antigos, principalmente daqueles da zona do casco histórico que podem ser transformados, como foi o caso do palácio Dona Ana Joaquina”, defende.

Uma petição com mais de 1 500 assinaturas circula há meses na Internet, na tentativa de travar a destruição do Elinga Teatro, documento que foi igualmente entregue em Maio passado à Assembleia Nacional pela Associação Kalu, uma organização da sociedade civil de interesse cultural. O movimento para travar a demolição, uma decisão da ministra da Cultura de Angola, Rosa Cruz e Silva, é liderado por artistas, académicos e políticos.

No lugar do Elinga Teatro, antigo Colégio das Beiras na década de 1940, está prevista a construção de um parque de estacionamento, escritórios e um hotel, um projecto imobiliário denominado Elipark.

Ângela Mingas, uma das vozes críticas em relação à descaracterização histórica e arquitectónica da cidade de Luanda e do caso em particular, ainda acredita que o edifício em causa não será demolido. Caso aconteça, defende, esta será uma perda com duas vertentes.

"Primeiro pelo facto de ser mais um sobrado (tipologia arquitectónica que só existe em Luanda e que está em vias de extinção, com menos de uma dezena de exemplares) a deixar de existir. Segundo, porque o edifício é o mais representativo espaço cultural da cidade de Luanda", frisou.

A arquitecta defende para o edifício, ao invés da destruição, a sua reabilitação "utilizando as tecnologias mais avançadas, permitindo maior segurança e dignidade ao trabalho que lá se faz". A intervenção sugerida por Ângela Mingas deve verificar-se em todo o quarteirão, "para que se preserve a paisagem dentro dos limites possíveis".

Local de encontro da classe artística luandense, o Elinga Teatro, que em umbundo significa acção, iniciativa, exercício, foi catalogado por despacho como "testemunho histórico do passado colonial" e monumento histórico em 1981. Contudo, em Abril de 2012, veio a ser desclassificado pelo Ministério da Cultura.

Crescimento demográfico trouxe desordem

A população de Luanda passou de 189 500, em 1960, para 475 328, em 1970, altura em que se realizou o último censo populacional, e de 898 000, em 1983, para mais de 5 milhões, em 2010, um aumento de 456% em 27 anos, ou seja, um crescimento médio anual de quase 17%, considerado um recorde, comparado com o crescimento populacional de outras cidades do mundo.

O rápido crescimento urbano e desordenado da capital deu origem a vários problemas como a degradação das condições de saneamento básico, dificuldade de acessos por falta de estradas secundárias e terciárias em bom estado, construção em lugares propensos a inundações e desabamentos, trânsito caótico, entre outros fenómenos que ocorrem na capital.

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